O Presépio do Homem

O Presépio do Homem

Cada movimento do ser
Se expande em ondas, como n’água
Uma pedrinha ali lançada
Que nela some e nem se vê.
Essas ondas vêm do poder
Da consciência quase divina
Que nasce na alma pequenina
Querendo ser realmente o ser.
Tal consciência quase divina,
Qual humilde e régio menino,
Nasce na gruta fria
- nossa mineral estrutura
Sobre um palhal rude e impreciso
- nosso vegetal organismo
Sob o bafo de burro e boi
Aspectos do homem por surgir:
Um teimoso, de resistir
E de insistir e decidir
E um que se deixa conduzir
E que, passivo, cede e vai.
A seu lado estão mãe e pai:
A mãe já tem dentro de si
Leve seiva que o vai nutrir;
O pai luta por conseguir
Lá fora o pão do seu porvir;
Jazem na mãe silêncio e calma
De milênios que formam a alma;
Partem do pai rumor e ação
Na descoberta da razão.

A esse menino visitaram
Jovens pastores sorridentes:
É o Amor que escuta o chamado,
Nada pergunta e logo atende.
A esse menino visitaram
Também os velhos, sérios magos,
Que da própria sabedoria
Extraíram a hora e o dia.
Dos pastores vai receber
A simples pele de uma ovelha
Para que aprende a obedecer
Ao clarão daquela centelha
Que conduz à reta procura
Na qual pálida criatura
Se eleva em luz e esplendor.
Pois quem aprende a ser ovelha
De si mesmo será pastor.
Dos três magos enfim lhe vêm
As três sementes da Trindade:
Ouro, incenso e mirra contém
Sabedoria, Amor, Vontade.

Ruth Salles

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