Pouco antes do jantar, Erik
comunicou a Renata a necessidade de
aguardar um dia ou dois para partir, uma
vez que a travessia da ponte tornara-se
impraticável. Ele precisara permanecer a
maior parte da tarde enviando e
recebendo telefonemas devido à
sabotagem.
Renata sentia vontade de
saber mais a respeito do atentado, mas
mantinha-se quieta, aguardando alguma
iniciativa por parte de Erik.
Tarde da noite, quando já se preparava
para dormir, a jovem ouviu baterem à
porta do quarto. Renata sobressaltou-se.
Jamais a haviam chamado àquela hora.
– Quem é?
– Sou eu, Erik. Por favor,
Renata, preciso falar com você.
Renata permaneceu por uns
instantes calada. Por que ele batera? A
porta não permanecia apenas encostada?
Em seguida, colocou o roupão e abriu a
porta.
Erik permanecia em pé diante
de seu quarto, com um olhar ansioso.
– Não tenha medo. Podemos
conversar? - perguntou ele, num tom de
súplica.
– Sim, sim... Mas... Onde...
– Em meu quarto, respondeu
ele firmemente.
Renata fitou-o, séria. Erik
prosseguiu:
– Calma! Não tenha medo! Não
vou tocá-la, fique tranqüila! Quero
apenas ter uma conversa franca com você,
com calma, antes que se vá em definitivo
daqui. Por favor...
– Está bem – aquiesceu a
jovem, seguindo-o.
Em
poucos instantes, adentraram o quarto de
Erik. Como comandante da guarnição,
eram-lhe destinados os melhores
aposentos do solar. Renata passou o
olhar em torno do ambiente, apreciando a
beleza e funcionalidade da decoração.
Novamente teve a sensação de que
faltavam peças no local. Erik
apontou-lhe um sofá, onde a jovem
acomodou-se, fechando discretamente as
fraldas do roupão.
Apenas nesse momento, Renata
deu-se conta de que estava diante de um
Erik completamente diferente da figura
uniformizada com que se habituara a
conviver. Observou que ele vestia trajes
civis, com um discreto pullover
de inverno em lugar da habitual e temida
farda alemã. Olhando-o, assim,
parecia-lhe estar diante de um Erik
familiar, pacífico, um homem comum,
jovial, como no íntimo gostaria que de
fato o fosse.
Ele acomodou-se, sentando-se
na cama, diante da jovem, e olhou-a
profundamente.
– Renata... – Erik suspirou.
– Puxa, como é doce o seu nome...
Renata baixou os olhos um
instante e em seguida fitou-o, atenta e
curiosa.
– Renata – prosseguiu ele
–, tomei a decisão de conversar com você
hoje, de lhe relatar e esclarecer alguns
fatos, porque não gostaria de vê-la
partir sem que me conhecesse
verdadeiramente. Talvez esta seja uma
decisão errada, eu posso até estar
colocando em risco muita coisa, mas... É
por você... Porque... Não sei... Tenho
dúvidas quanto ao futuro, ao futuro de
todos nós, da Áustria, da Alemanha, da
humanidade.
Erik levantou-se, mãos nos
bolsos, fitando um ponto indefinido na
parede. Renata acompanhava-o com o
olhar, sorvendo suas palavras. Percebia
que algo muito importante estava prestes
a lhe ser revelado. Ansiava e temia ao
mesmo tempo o que estava por vir. Erik,
então, virou-se para ela e falou:
– Você está partindo e não
quero que leve uma imagem equivocada de
mim. Talvez nunca mais nos encontremos
na vida, mas, quando se lembrar destes
dias, espero que se recorde com menos
pesar, após saber o que tenho a dizer.
–
Muito bem. Fale, se julga
que sou merecedora de saber - murmurou
Renata, arrebatada e intrigada.
– Se é merecedora... Ahn,
meu Deus! – suspirou Erik, balançando
levemente a cabeça. Ninguém o é mais...
Dizendo isto, voltou a
sentar-se à frente de Renata e, então,
começou a relatar:
– Em primeiro lugar, quero
que saiba que, desde o primeiro
instante, eu não tive qualquer intenção
capciosa de retê-la aqui... Compreende?
Na verdade, eu a retive para poupá-la.
– Poupar-me? Como assim?!
– Poupar, sim! Eu percebi
que suas amigas suspeitavam de que você
poderia ser desviada para fins
aviltantes. As suspeitas de suas amigas
não eram infundadas. De fato, existe a
cooptação de jovens para servirem de "companhia"
para os soldados e oficiais. Se não se
entregam como voluntárias, são levadas à
força. Quando percebi que você poderia
ser uma dessas infelizes, insinuei que
pretendia usar seus préstimos...
requisitei-a para fins particulares.
Provavelmente, pensaram em algo ignóbil.
Mas jamais tive essa intenção...
– Dessa forma me poupou
–, concluiu Renata, com um leve toque de
ironia.
– Se
houvesse outro comandante em meu lugar –
prosseguiu Erik –, vocês, pela simples
suspeita de estarem em companhia do
fugitivo, poderiam ter sofrido
represálias horríveis. Se fosse a
Gestapo, então... É bom nem pensar. Eles
têm autorização para prender sem provas,
matar sem julgamento... Vocês poderiam
ser detidas, fuziladas, cooptadas ou
algo semelhante! Mas comigo não... Eu
jamais poderia fazer algo assim com
criaturas inocentes.
– Mas você insinuou para o
oficial das SS que queria usar-me para
serviços particulares...
– Isso mesmo. Perdoe-me. Mas
às vezes eu tenho necessidade de agir de
certa forma... Assim, de parecer cruel,
despótico, vil até... Diante de oficiais
S.S. Você saberá por quê!
Renata, a essa altura,
levantou-se exaltada:
– Sim! Eu não compreendo...
Por quê? Por que você teria necessidade
de parecer cruel, de parecer um...
– Nazista... Não é? –
concluiu Erik, levantando-se também.
–
Sim, nazista... Você já
não é um nazista? – perguntou a jovem. –
Por que tem necessidade de parecer
um?
– Porque eu não sou um
nazista! – exclamou Erik. – Eu não sou
um nazista! Nunca fui e jamais serei!
Porque é absurda essa idéia
generalizante – de que todo o povo
germânico é composto por nazistas! Eu
não sou nazista... Aliás, nem alemão eu
sou!
– Você... Não é alemão?! –
surpreendeu-se Renata.
– Não. Nasci em Viena, na
Áustria! Meu pai é alemão, mas eu, assim
como minha mãe, sou austríaco! Embora
mantenha fortes laços com a Alemanha,
claro... Mas, decididamente, nazista eu
não sou!
Renata fitou-o intensamente.
A jovem principiava a deixar-se dominar
por uma grande sensação de alívio. Isso
era tudo o que ela ansiava ouvir dele.
De repente, parecia que suas almas
começavam a se aproximar, que as
barreiras iam-se desfazendo perante
ambos.
– Sou um nacionalista, um
patriota! – prosseguiu Erik. – Entrei
nessa guerra para lutar por minha
pátria, não pelos insanos objetivos
nazistas! E escolhi a forma mais
conveniente de lutar... A que estava a
meu alcance!
– Combatendo ao lado dos
nazistas! – rebateu Renata, irônica. –
Forma conveniente de lutar? É no mínimo
contraditória a sua decisão...
– Sei que, à primeira
vista, é difícil compreender, –
defendeu-se Erik. – Mas... Venha comigo,
você vai entender já, já...
Erik tomou Renata pelas mãos
e levou-a para os fundos de seus
aposentos, entrando em um compartimento
íntimo – um closet.
O local, entulhado por
pilhas de materiais diversos, caixas,
cabides com roupas, apresentava-se
apertado e abafado, tornando necessário
que ambos permanecessem muito próximos.
Renata sentia um doce e perturbador
calafrio com aquela proximidade tão
sedutora, mas estava confusa demais para
reagir. Fechou os olhos um instante,
sentido o calor do corpo de Erik, o
sabor suave de uma fragrância,
provavelmente uma loção após-barba,
lembrando-se do inesperado beijo do dia
anterior. Erik abaixou-se e apanhou uma
mala preta sob os materiais, abrindo-a
em seguida, no próprio chão.
–Veja
– disse o rapaz. – E tire suas
conclusões.
Renata observou o conteúdo
da mala preta. Tratava-se de um
radiotransmissor, desses utilizados para
envio de mensagens secretas. Um
pensamento passou-lhe pela cabeça, mas
ela relutava em acreditar.
– Você?! – Renata olhou para
Erik, incrédula. – Será possível?! Você
usa esse rádio para transmitir...
Mensagens secretas?
– Isso mesmo – confirmou
Erik, com o semblante sereno, fechando a
mala e levantando-se.
– Então quer dizer que
você... – Renata fitava-o, espantada. –
Oh, meu Deus... Quem diria...
– É isso mesmo que você está
pensando, Renata. Sou o que se chama de
"agente duplo". Aos olhos da
Alemanha oficial, um traidor. Mas aos
olhos dos cidadãos de bem, dos alemães e
dos austríacos verdadeiramente
nacionalistas, daqueles que
compreenderam os absurdos da insana
política nazista, sou um batalhador da
Resistência. Você sabia que existe uma
articulação de patriotas, uma
"resistência alemã", que colabora
para que a guerra termine logo, para que
o nazismo seja aniquilado e que se
recomponha com dignidade o avanço da
humanidade? Não posso entrar em
detalhes, mas, neste preciso momento,
expressivas figuras do cenário político
alemão, homens de consciência,
movimentam-se para derrubar os tiranos
que estão aniquilando a pátria e
arrastando o mundo!
Renata ainda continuava
espantada, olhando com admiração para
aquela figura de homem à sua frente,
tantas vezes temido, tantas vezes
odiado, mas em seu íntimo tantas vezes
desejado.
Sentia-se encher de júbilo.
Não... Agora ela compreendia... No fundo
já pressentia essa doce realidade...
Cedo ou tarde a verdade eclodiria... Seu
coração não poderia tê-la enganado...
Ela não teria se apaixonado por alguém
que não fosse digno... E ali estava ele,
a lhe escancarar as portas de seu
verdadeiro ego, a revelar-se um homem
corajoso, comprometido com o bem comum,
arriscando-se em prol de um desfecho
desejável para o sangrento conflito que
se arrastava há anos e que levava de
roldão toda a humanidade.
Erik
olhava-a, ansioso, querendo
adivinhar-lhe os mais íntimos
pensamentos.
Renata abanou a cabeça
alguns instantes, mirando-o
profundamente, com os olhos marejados de
lágrimas e murmurando:
– Oh... Meu Deus... Isso é
maravilhoso... Erik... – sussurrou
Renata e pôs-se a soluçar
baixinho.
Instintivamente, dominado
por extrema emoção, Erik começou a
abraçá-la, gesto a que Renata não
esboçou a menor reação de repúdio. Ao
contrário, a jovem deixou-se enlaçar,
suavemente a princípio, passando em
seguida a uma arrebatadora entrega de si
mesma. Com um ímpeto incontrolado, entre
lágrimas e suspiros, Renata correspondia
a seus afagos, abraçando-o e beijando-o
ardentemente, murmurando palavras
entrecortadas por seus lábios, que a
procuravam ansiosamente, enquanto
revelava todo seu amor.
– Sonhei tanto com esse
momento, Renata... Eu a amo... Eu a
amo... Meu Deus, como é possível amar
tanto assim?...
– Eu também, meu amor... Eu
o amo... Eu o adoro... Oh, Erik, este é
o momento mais feliz de minha vida...
E assim, rompiam-se as
barreiras que os separavam...
Duas almas destinadas a uma
entrega mútua, até aquele momento
separadas, impedidas por equívocos de
consciência e de ética, agora mais do
que nunca compreendiam que sempre
compartilharam os mesmos ideais de
dignidade humana...
Por um tempo indefinido,
ambos permaneceram ali, no closet,
em pé, entre ardentes juras e carinhos,
completamente alheios à realidade.
Sentindo que Renata correspondia a seus
anseios, Erik tomou-a nos braços e
reconduziu-a para o centro do aposento,
depositando-a cuidadosamente sobre o
leito. Renata, atordoada de felicidade,
correspondendo aos beijos e carinhos de
Erik, deixou que seu ser, desde os mais
íntimos recônditos, atendesse aos apelos
por tanto tempo contidos, numa atitude
de entrega incondicional...
Após uma noite castigada pela nevasca, a
madrugada fria retirava-se para dar
lugar à manhã que surgia com a promessa
de um dia mais agradável que o anterior.
Renata acordou e olhou ao redor,
devagar. Parecia o despertar de um
sonho. Mas não... Era realidade! O lugar
ocupado por Erik, no leito,
encontrava-se vazio. Na penumbra,
percebeu seu vulto junto à janela,
pensativo, observando a paisagem lá
fora. Erik notou que a amada estava
acordada e aproximou-se sorrindo,
deitando-se carinhosamente a seu lado:
– Bom dia...
- disse ela, com um semblante alegre e
sedutor.
– Nunca um "bom dia"
foi tão doce e teve tanto significado...
- respondeu ele, recostando-se a seu
lado.
Enlaçou-a afetuosamente,
perguntando:
– Arrependida?
– Não! Jamais! – disse ela.
– Só não encontro nenhuma palavra para
definir a felicidade que estou sentindo.
– Nem em português? –
brincou ele.
– Nem em português, –
respondeu Renata, sorrindo.
Por algum tempo permaneceram
ali, mudos, abraçados, como a desejar
que aquele instante mágico perdurasse
para sempre. Logicamente tinham
consciência de que a realidade em volta
era cruel e precisava ser encarada de
imediato.
Erik levantou-se,
expressando preocupação e cuidado:
– Precisamos conversar
seriamente...
Renata sorriu:
– Não está com medo de que
eu revele seu segredo, está?
–
Não é isso, – sorriu Erik.
Minha confiança em você é plena,
irrestrita. Sei que vai embora, mas que
meu segredo estará a salvo, como se o
tivesse deixado aqui.
– Não vou mais embora, –
disse Renata serena e firmemente.
Erik olhou-a sério.
– Não vou mais! – repetiu
ela. – Quero ficar aqui, a seu lado.
– Querida... – murmurou Erik,
sentando-se novamente na cama e
abraçando-a fortemente. – Enlouqueceu?
Agora, mais do que nunca, você precisa
partir!
– Por quê, meu amor? E ficar
longe de você? Justamente agora que eu o
tenho junto a mim, Erik?
– Renata, seja razoável.
Entenda. Agora você precisa mesmo ir
embora. Permanecer a meu lado é um
grande risco. Eu posso ser descoberto a
qualquer momento. Se você ficar aqui, se
perceberem que estamos envolvidos,
sofrerá as conseqüências também. Você
não faz idéia da crueldade que é
destinada aos parentes, aos íntimos dos
"traidores"...
– Ninguém perceberá nada, –
rebateu Renata, em tom de súplica. –
Vamos ter cuidado. Eu permanecerei como
secretária, tradutora, sei lá... Como
estava até agora...
– Não... Não... – insistiu
Erik. – O ideal é você partir. Volte
para Portugal, é mais seguro para
você... Ou para a Espanha... Poderemos
nos encontrar futuramente.
Renata reagia, enérgica.
– Não! Erik, não, por favor,
não me deixe perdê-lo assim tão cedo,
logo após meu coração tê-lo resgatado!
Deixe-me ficar com você...
Erik abraçava-a, emocionado
com tanta manifestação de afeto.
– Renata, querida... Você
acha que também não estou angustiado?
Enquanto você dormia, fiquei a noite
toda acordado, observando-a, pensando,
pensando... Vamos encontrar uma saída,
mas ficar aqui a meu lado, não... Aliás,
eu ia, de qualquer forma, mandá-la
partir logo... Mesmo antes de você ter
aquela explosão de raiva ontem...
– Ia mandar-me embora de
qualquer modo?
– Sim. Você já havia
permanecido um tempo mais do que
suficiente. Eu estava protelando
porque... Sei lá... Porque meu coração
impedia... No fundo, eu queria
entender-me com você antes... Mas iria
chegar um momento inadiável...
Renata
ouvia calada.
Erik encarou-a, sério:
– Vou pensar em uma solução
viável. Talvez você possa ficar em algum
local seguro para mantermo-nos em
contato.
O dia amanhecera.
Renata preocupava-se em
retornar a seus aposentos.
– Preciso voltar a meu
quarto. Daqui a pouco começarão as
atividades por aqui...
Erik a retinha em seus
braços, suplicante:
– É cedo, ainda. Fique mais
um pouquinho...
Como não atender a um
pedido tão doce?
– Está bem – disse
ela, encarando-o com suavidade no olhar.
– Só mais um pouquinho...
Veja outra cena de
amor enttr Erik e Renata
Resumo do romance
Muito além do Pôr-do-sol, de
Oriza Martins
páginas
1 -
2 -
3