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Muito Além do Pôr-do-sol... uma cena de amor


 

Frases de Amor, por William Shakespeare

Poemas e Frases de Fernando Pessoa

Poemas de Amor

Lindos poemas em português

 

A cena a seguir, entre os protagonistas Erik e Renata, faz parte do romance Muito além do Pôr-do-sol, de Oriza Martins

Personagens:

Major Erik von Lannenberg - oficial do exército alemão

Renata - uma brasileira em trânsito pela França, detida em um destacamento militar germânico durante a Segunda Guerra Mundial

Veja o resumo do romance: páginas 1 - 2 - 3

* * * *

Quando falam os corações...

            Pouco antes do jantar, Erik comunicou a Renata a necessidade de aguardar um dia ou dois para partir, uma vez que a travessia da ponte tornara-se impraticável. Ele precisara permanecer a maior parte da tarde enviando e recebendo telefonemas devido à sabotagem.

            Renata sentia vontade de saber mais a respeito do atentado, mas mantinha-se quieta, aguardando alguma iniciativa por parte de Erik.

Tarde da noite, quando já se preparava para dormir, a jovem ouviu baterem à porta do quarto. Renata sobressaltou-se. Jamais a haviam chamado àquela hora.

             – Quem é?

             – Sou eu, Erik. Por favor, Renata, preciso falar com você.

            Renata permaneceu por uns instantes calada. Por que ele batera? A porta não permanecia apenas encostada? Em seguida, colocou o roupão e abriu a porta.

            Erik permanecia em pé diante de seu quarto, com um olhar ansioso.

            – Não tenha medo. Podemos conversar? - perguntou ele, num tom de súplica.

            – Sim, sim... Mas... Onde...

            – Em meu quarto, respondeu ele firmemente.

            Renata fitou-o, séria. Erik prosseguiu:

            – Calma! Não tenha medo! Não vou tocá-la, fique tranqüila! Quero apenas ter uma conversa franca com você, com calma, antes que se vá em definitivo daqui. Por favor...

            – Está bem – aquiesceu a jovem, seguindo-o.

            Em poucos instantes, adentraram o quarto de Erik. Como comandante da guarnição, eram-lhe destinados os melhores aposentos do solar. Renata passou o olhar em torno do ambiente, apreciando a beleza e funcionalidade da decoração. Novamente teve a sensação de que faltavam peças no local. Erik apontou-lhe um sofá, onde a jovem acomodou-se, fechando discretamente as fraldas do roupão.

            Apenas nesse momento, Renata deu-se conta de que estava diante de um Erik completamente diferente da figura uniformizada com que se habituara a conviver. Observou que ele vestia trajes civis, com um discreto pullover de inverno em lugar da habitual e temida farda alemã. Olhando-o, assim, parecia-lhe estar diante de um Erik familiar, pacífico, um homem comum, jovial, como no íntimo gostaria que de fato o fosse.

            Ele acomodou-se, sentando-se na cama, diante da jovem, e olhou-a profundamente.

            – Renata... – Erik suspirou. – Puxa, como é doce o seu nome...

            Renata baixou os olhos um instante e em seguida fitou-o, atenta e curiosa.

             – Renata – prosseguiu ele –, tomei a decisão de conversar com você hoje, de lhe relatar e esclarecer alguns fatos, porque não gostaria de vê-la partir sem que me conhecesse verdadeiramente. Talvez esta seja uma decisão errada, eu posso até estar colocando em risco muita coisa, mas... É por você... Porque... Não sei... Tenho dúvidas quanto ao futuro, ao futuro de todos nós, da Áustria, da Alemanha, da humanidade.

            Erik levantou-se, mãos nos bolsos, fitando um ponto indefinido na parede. Renata acompanhava-o com o olhar, sorvendo suas palavras. Percebia que algo muito importante estava prestes a lhe ser revelado. Ansiava e temia ao mesmo tempo o que estava por vir. Erik, então, virou-se para ela e falou:

             – Você está partindo e não quero que leve uma imagem equivocada de mim. Talvez nunca mais nos encontremos na vida, mas, quando se lembrar destes dias, espero que se recorde com menos pesar, após saber o que tenho a dizer.

        Muito bem. Fale, se julga que sou merecedora de saber - murmurou Renata, arrebatada e intrigada.

             – Se é merecedora... Ahn, meu Deus! – suspirou Erik, balançando levemente a cabeça. Ninguém o é mais...

            Dizendo isto, voltou a sentar-se à frente de Renata e, então, começou a relatar:

            – Em primeiro lugar, quero que saiba que, desde o primeiro instante, eu não tive qualquer intenção capciosa de retê-la aqui... Compreende? Na verdade, eu a retive para poupá-la.

            – Poupar-me? Como assim?!

            – Poupar, sim! Eu percebi que suas amigas suspeitavam de que você poderia ser desviada para fins aviltantes. As suspeitas de suas amigas não eram infundadas. De fato, existe a cooptação de jovens para servirem de "companhia" para os soldados e oficiais. Se não se entregam como voluntárias, são levadas à força. Quando percebi que você poderia ser uma dessas infelizes, insinuei que pretendia usar seus préstimos... requisitei-a para fins particulares. Provavelmente, pensaram em algo ignóbil. Mas jamais tive essa intenção...

            – Dessa forma me poupou –, concluiu Renata, com um leve toque de ironia.

             – Se houvesse outro comandante em meu lugar – prosseguiu Erik –, vocês, pela simples suspeita de estarem em companhia do fugitivo, poderiam ter sofrido represálias horríveis. Se fosse a Gestapo, então... É bom nem pensar. Eles têm autorização para prender sem provas, matar sem julgamento... Vocês poderiam ser detidas, fuziladas, cooptadas ou algo semelhante! Mas comigo não... Eu jamais poderia fazer algo assim com criaturas inocentes.

            – Mas você insinuou para o oficial das SS que queria usar-me para serviços particulares...

            – Isso mesmo. Perdoe-me. Mas às vezes eu tenho necessidade de agir de certa forma... Assim, de parecer cruel, despótico, vil até... Diante de oficiais S.S. Você saberá por quê!

            Renata, a essa altura, levantou-se exaltada:

            – Sim! Eu não compreendo... Por quê? Por que você teria necessidade de parecer cruel, de parecer um...

            – Nazista... Não é? – concluiu Erik, levantando-se também.

        Sim, nazista... Você já não é um nazista? – perguntou a jovem. – Por que tem necessidade de parecer um?

 

            – Porque eu não sou um nazista! – exclamou Erik. – Eu não sou um nazista! Nunca fui e jamais serei! Porque é absurda essa idéia generalizante – de que todo o povo germânico é composto por nazistas! Eu não sou nazista... Aliás, nem alemão eu sou!

            – Você... Não é alemão?! – surpreendeu-se Renata.

            – Não. Nasci em Viena, na Áustria! Meu pai é alemão, mas eu, assim como minha mãe, sou austríaco! Embora mantenha fortes laços com a Alemanha, claro... Mas, decididamente, nazista eu não sou!

            Renata fitou-o intensamente. A jovem principiava a deixar-se dominar por uma grande sensação de alívio. Isso era tudo o que ela ansiava ouvir dele. De repente, parecia que suas almas começavam a se aproximar, que as barreiras iam-se desfazendo perante ambos.

             – Sou um nacionalista, um patriota! – prosseguiu Erik. – Entrei nessa guerra para lutar por minha pátria, não pelos insanos objetivos nazistas! E escolhi a forma mais conveniente de lutar... A que estava a meu alcance!

             – Combatendo ao lado dos nazistas! – rebateu Renata, irônica. – Forma conveniente de lutar? É no mínimo contraditória a sua decisão...

             – Sei que, à primeira vista, é difícil compreender, – defendeu-se Erik. – Mas... Venha comigo, você vai entender já, já...

            Erik tomou Renata pelas mãos e levou-a para os fundos de seus aposentos, entrando em um compartimento íntimo – um closet.

            O local, entulhado por pilhas de materiais diversos, caixas, cabides com roupas, apresentava-se apertado e abafado, tornando necessário que ambos permanecessem muito próximos. Renata sentia um doce e perturbador calafrio com aquela proximidade tão sedutora, mas estava confusa demais para reagir. Fechou os olhos um instante, sentido o calor do corpo de Erik, o sabor suave de uma fragrância, provavelmente uma loção após-barba, lembrando-se do inesperado beijo do dia anterior. Erik abaixou-se e apanhou uma mala preta sob os materiais, abrindo-a em seguida, no próprio chão.

             –Veja – disse o rapaz. – E tire suas conclusões.

            Renata observou o conteúdo da mala preta. Tratava-se de um radiotransmissor, desses utilizados para envio de mensagens secretas. Um pensamento passou-lhe pela cabeça, mas ela relutava em acreditar.

            – Você?! – Renata olhou para Erik, incrédula. – Será possível?! Você usa esse rádio para transmitir...  Mensagens secretas?

            – Isso mesmo – confirmou Erik, com o semblante sereno, fechando a mala e levantando-se.

            – Então quer dizer que você... – Renata fitava-o, espantada. – Oh, meu Deus... Quem diria...

            – É isso mesmo que você está pensando, Renata. Sou o que se chama de "agente duplo". Aos olhos da Alemanha oficial, um traidor. Mas aos olhos dos cidadãos de bem, dos alemães e dos austríacos verdadeiramente nacionalistas, daqueles que compreenderam os absurdos da insana política nazista, sou um batalhador da Resistência. Você sabia que existe uma articulação de patriotas, uma "resistência alemã", que colabora para que a guerra termine logo, para que o nazismo seja aniquilado e que se recomponha com dignidade o avanço da humanidade? Não posso entrar em detalhes, mas, neste preciso momento, expressivas figuras do cenário político alemão, homens de consciência, movimentam-se para derrubar os tiranos que estão aniquilando a pátria e arrastando o mundo!

            Renata ainda continuava espantada, olhando com admiração para aquela figura de homem à sua frente, tantas vezes temido, tantas vezes odiado, mas em seu íntimo tantas vezes desejado.

            Sentia-se encher de júbilo. Não... Agora ela compreendia... No fundo já pressentia essa doce realidade... Cedo ou tarde a verdade eclodiria... Seu coração não poderia tê-la enganado... Ela não teria se apaixonado por alguém que não fosse digno... E ali estava ele, a lhe escancarar as portas de seu verdadeiro ego, a revelar-se um homem corajoso, comprometido com o bem comum, arriscando-se em prol de um desfecho desejável para o sangrento conflito que se arrastava há anos e que levava de roldão toda a humanidade.

            Erik olhava-a, ansioso, querendo adivinhar-lhe os mais íntimos pensamentos.

            Renata abanou a cabeça alguns instantes, mirando-o profundamente, com os olhos marejados de lágrimas e murmurando:

            – Oh... Meu Deus... Isso é maravilhoso... Erik... – sussurrou Renata e pôs-se a soluçar baixinho.         

             Instintivamente, dominado por extrema emoção, Erik começou a abraçá-la, gesto a que Renata não esboçou a menor reação de repúdio. Ao contrário, a jovem deixou-se enlaçar, suavemente a princípio, passando em seguida a uma arrebatadora entrega de si mesma. Com um ímpeto incontrolado, entre lágrimas e suspiros, Renata correspondia a seus afagos, abraçando-o e beijando-o ardentemente, murmurando palavras entrecortadas por seus lábios, que a procuravam ansiosamente, enquanto revelava todo seu amor.

            – Sonhei tanto com esse momento, Renata... Eu a amo... Eu a amo... Meu Deus, como é possível amar tanto assim?...

            – Eu também, meu amor... Eu o amo... Eu o adoro... Oh, Erik, este é o momento mais feliz de minha vida...

            E assim, rompiam-se as barreiras que os separavam...

            Duas almas destinadas a uma entrega mútua, até aquele momento separadas, impedidas por equívocos de consciência e de ética, agora mais do que nunca compreendiam que sempre compartilharam os mesmos ideais de dignidade humana...

            Por um tempo indefinido, ambos permaneceram ali, no closet, em pé, entre ardentes juras e carinhos, completamente alheios à realidade. Sentindo que Renata correspondia a seus anseios, Erik tomou-a nos braços e reconduziu-a para o centro do aposento, depositando-a cuidadosamente sobre o leito. Renata, atordoada de felicidade, correspondendo aos beijos e carinhos de Erik, deixou que seu ser, desde os mais íntimos recônditos, atendesse aos apelos por tanto tempo contidos, numa atitude de entrega incondicional...

Após uma noite castigada pela nevasca, a madrugada fria retirava-se para dar lugar à manhã que surgia com a promessa de um dia mais agradável que o anterior.

Renata acordou e olhou ao redor, devagar. Parecia o despertar de um sonho. Mas não... Era realidade! O lugar ocupado por Erik, no leito, encontrava-se vazio. Na penumbra, percebeu seu vulto junto à janela, pensativo, observando a paisagem lá fora. Erik notou que a amada estava acordada e aproximou-se sorrindo, deitando-se carinhosamente a seu lado:

            – Bom dia... - disse ela, com um semblante alegre e sedutor.

            – Nunca um "bom dia" foi tão doce e teve tanto significado... - respondeu ele, recostando-se a seu lado.

            Enlaçou-a afetuosamente, perguntando:

            – Arrependida?

            – Não! Jamais! – disse ela.  – Só não encontro nenhuma palavra para definir a felicidade que estou sentindo.

            – Nem em português? – brincou ele.

            – Nem em português, – respondeu Renata, sorrindo.

            Por algum tempo permaneceram ali, mudos, abraçados, como a desejar que aquele instante mágico perdurasse para sempre. Logicamente tinham consciência de que a realidade em volta era cruel e precisava ser encarada de imediato.

            Erik levantou-se, expressando preocupação e cuidado:

            – Precisamos conversar seriamente...

            Renata sorriu:

            – Não está com medo de que eu revele seu segredo, está?

        Não é isso, – sorriu Erik. Minha confiança em você é plena, irrestrita. Sei que vai embora, mas que meu segredo estará a salvo, como se o tivesse deixado aqui.

            – Não vou mais embora, – disse Renata serena e firmemente.

            Erik olhou-a sério.

            – Não vou mais! – repetiu ela. – Quero ficar aqui, a seu lado.

            – Querida... – murmurou Erik, sentando-se novamente na cama e abraçando-a fortemente. – Enlouqueceu? Agora, mais do que nunca, você precisa partir!

            – Por quê, meu amor? E ficar longe de você? Justamente agora que eu o tenho junto a mim, Erik?

            – Renata, seja razoável. Entenda. Agora você precisa mesmo ir embora. Permanecer a meu lado é um grande risco. Eu posso ser descoberto a qualquer momento. Se você ficar aqui, se perceberem que estamos envolvidos, sofrerá as conseqüências também. Você não faz idéia da crueldade que é destinada aos parentes, aos íntimos dos "traidores"...

            – Ninguém perceberá nada, – rebateu Renata, em tom de súplica. – Vamos ter cuidado. Eu permanecerei como secretária, tradutora, sei lá... Como estava até agora...

            – Não... Não... – insistiu Erik. – O ideal é você partir. Volte para Portugal, é mais seguro para você... Ou para a Espanha... Poderemos nos encontrar futuramente.

            Renata reagia, enérgica.

            – Não! Erik, não, por favor, não me deixe perdê-lo assim tão cedo, logo após meu coração tê-lo resgatado! Deixe-me ficar com você...

            Erik abraçava-a, emocionado com tanta manifestação de afeto.

            – Renata, querida... Você acha que também não estou angustiado? Enquanto você dormia, fiquei a noite toda acordado, observando-a, pensando, pensando... Vamos encontrar uma saída, mas ficar aqui a meu lado, não... Aliás, eu ia, de qualquer forma, mandá-la partir logo... Mesmo antes de você ter aquela explosão de raiva ontem...

            – Ia mandar-me embora de qualquer modo?

            – Sim. Você já havia permanecido um tempo mais do que suficiente. Eu estava protelando porque... Sei lá... Porque meu coração impedia... No fundo, eu queria entender-me com você antes... Mas iria chegar um momento inadiável...

            Renata ouvia calada.

            Erik encarou-a, sério:

            – Vou pensar em uma solução viável. Talvez você possa ficar em algum local seguro para mantermo-nos em contato.

            O dia amanhecera.

            Renata preocupava-se em retornar a seus aposentos.

            – Preciso voltar a meu quarto. Daqui a pouco começarão as atividades por aqui...

            Erik a retinha em seus braços, suplicante:

            – É cedo, ainda. Fique mais um pouquinho...

            Como não atender a um pedido tão doce?

            – Está bem – disse ela, encarando-o com suavidade no olhar. – Só mais um pouquinho...

Veja outra cena de amor enttr Erik e Renata

Resumo do romance Muito além do Pôr-do-sol, de Oriza Martins

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