A manhã surgiu fria e silenciosa. Nevara
bastante durante a madrugada. Movida
pela sensação de ira que experimentara
durante a noite, Renata levantou-se como
um autômato, decidida a devolver a Erik
a pasta com os documentos históricos e a
exigir uma tomada de decisão quanto a
sua situação no solar.
Desceu a escadaria com o
semblante sério, carregado, e adentrou o
gabinete com passos decisivos, jogando a
pasta sobre a mesa. Erik levantou-se
rapidamente percebendo o nervosismo da
jovem.
– Eis seus valiosos
documentos! – disse a jovem duramente. –
Termine o trabalho sozinho. Você deve
conhecer sânscrito também, não?
– Calma, Renata. – Vamos
conversar... – principiou a dizer Erik,
acercando-se dela.
– Calma, que calma?! –
falava Renata, alterando-se. – Chega!
Estou farta de ficar interceptada aqui,
de ser tratada como um objeto! Exijo
meus documentos, minha liberdade!
– Um objeto?! Tratada como
um objeto?! – rebateu Erik, incrédulo. –
Eu tenho me desdobrado em tratá-la com
respeito, com cortesia, com
consideração...
– Respeito?! – gritou ela. –
Esquece-se de que sou uma prisioneira
inocente? Que você é meu algoz?! Isso é
respeito por um ser humano? Eu não pedi
para estar aqui! Foi você quem me
reteve, me seqüestrou, me encarcerou!
Renata despejava sobre ele
toda sua revolta, levando-o a reagir.
Erik sentiu seu sangue germânico vibrar
e, pela primeira vez, falou-lhe
duramente, com uma ponta de ironia:
– A senhorita não me parece
uma prisioneira desesperada. Muito pelo
contrário. Aparenta estar bem à vontade.
Eu tenho procurado tratá-la com o maior
respeito possível, mas suas atitudes
continuam hostis comigo. Eu, sim, é que
poderia ter motivos para preocupar-me.
Por que se resignou em deixar-se ficar,
sem reação? Quem me garante que não é
uma espiã?
Indignada, em pé diante
dele, Renata esbofeteou-o.
Erik permaneceu impassível.
Era a primeira vez que ambos
se tocavam.
Arrebatada, ela
esbofeteou-o novamente, na outra face, e
outra vez, mais outra, foi esbofeteando,
alternando as faces, até que ele
segurou-lhe firmemente o braço,
dominando-a. Renata permaneceu hirta,
encarando-o, colérica, principiando a
chorar. No íntimo, esbofeteara-se a si
mesma. Despejava sobre ele seu complexo
de culpa por não conseguir controlar o
que estava sentindo. Erik, com firmeza,
olhando decidido para seu rosto,
segurou-lhe o pulso com a mão direita, e
falou, com um sorriso levemente irônico,
enquanto enlaçava sua cintura com o
outro braço:
– Quem agride um oficial merece
punição...
À medida que pronunciava essas palavras
Erik ia apertando Renata firmemente
junto a seu corpo. Em vão a jovem
tentava desvencilhar-se. Antes que ela
pudesse balbuciar qualquer som, Erik
beijou sua boca com um ímpeto
arrebatador, surpreendendo-a e
deixando-a completamente indefesa.
Renata ainda tentou livrar-se de seus
braços, mas ele a beijava com uma paixão
desenfreada, ferindo-lhe os lábios, como
a castigá-la pelas bofetadas, até que
ela sentiu fugir-lhe as forças para
reagir e, por instantes, entregou-se
àquele momento mágico e tenso...
Aos
poucos, percebendo que Renata
abandonara-se ao sabor daquele forte
abraço e daquele beijo tão ardente, Erik
foi retirando suavemente seus lábios dos
dela, beijando-lhe a face, com ternura,
acariciando-lhe os cabelos, enquanto
Renata, quase desfalecida em seus
braços, sentia escorrerem-lhe as
lágrimas pela face, frustrada por
revelar tanta fraqueza.
Erik, então, beijando-lhe as lágrimas no
rosto, fitou-lhe profundamente os olhos,
murmurando:
– Perdoe-me... Foi um
momento de fraqueza... Eu não tenho esse
direito... Perdoe-me... Sabe... É esta
maldita guerra... Mexe com nossos
nervos, obriga-nos a fazer coisas...
Dizendo isto, o Major
delicadamente começou a liberá-la do
abraço revelador, mas Renata terminou
por soltar-se bruscamente de seus
braços, soluçando:
– Como ousa?! Como ousa encostar essa
maldita farda em mim?!
Aos prantos, Renata correu para seus
aposentos, subindo a escadaria,
atordoada e atônita com a cena que
vivenciara.
Pelos corredores, as sentinelas,
posicionadas, imóveis, observavam a
jovem passar celeremente, com olhares
aparentementes frios...
Erik permaneceu em pé, no
centro do gabinete, por indefinidos
minutos, sério, com os pensamentos em
convulsão. Na vidraça da janela fechada,
viu seu reflexo e olhou pausadamente
para a farda que tanto repugnava Renata.
Ele então desejou que a repulsa fosse
apenas pelo uniforme militar - de
significado tão sinistro – e não por sua
pessoa, mas, no fundo, sabia que,
enquanto a jovem o visse como um
nazista, o repeliria, com certeza. Por
algum tempo ficou ali, meditando,
amaldiçoando a guerra – que detona e
confunde mentes e corações – e, ao mesmo
tempo, abençoando a oportunidade que o
conflito lhe proporcionava – de conhecer
Renata, essa alma especial que conseguia
arrebatá-lo completamente e fazer a vida
valer a pena em meio a tantas
tragédias...
Lá
fora, o tempo piorava, como se
acompanhasse o torvelinho de sentimentos
que avassalava aquelas duas almas
atormentadas...
* * *
Renata precipitou-se por seu
aposento, atirando-se sobre o leito, aos
prantos. Sentia-se atordoada, ferida e,
ao mesmo tempo, feliz, admitindo-o a
contragosto, envolvida num torvelinho de
sentimentos contraditórios. O sabor dos
lábios de Erik, a mágoa por suas
insinuações, a força com que a envolveu
em seus braços - tudo isso gravitava em
seu ego, atormentando-a. Um leve
estremecimento subia por seu corpo.
Sentia ainda a pressão dos braços de
Erik, firmes, a envolvê-la. A cena do
beijo vinha-lhe à mente mais e mais...
revivia cada instante, cada segundo,
como a desejar repeti-lo
indefinidamente.
– E
agora? O que vai acontecer agora? –
indagava-se ela.